Como remunerar herdeiros em uma empresa familiar?

 Cada família empresária tem sua maneira de gerenciar este tema

Uma questão que parece simples  e que, na verdade, é bastante complexa  é a remuneração dos familiares que trabalham nos negócios da família. A remuneração não lida apenas com a questão dos salários mensais. Ela engloba benefícios, questões de igualdade e equidade e até os planos de aposentadoria dos familiares.

Muitos pais querem ser justos. Dentro de seu padrão de Justiça acham que o correto é dar o mesmo salário para todos os filhos que trabalham na empresa. Normalmente, os futuros herdeiros exercem funções diferentes não tendo nem o mesmo nível de responsabilidade e nem de  autoridade em seus cargos. Um filho ou filha podem estar exercendo cargos em nível de chefia enquanto outros em nível de supervisão. Eles devem ganhar o mesmo? Para muitos pais sim, pois não querem implantar discórdia e ressentimento entre os filhos. Ao fazer isto, semeiam ressentimentos entre os  irmãos. Os irmãos que têm maiores responsabilidades não aceitarão que os demais, em cargos inferiores ganhem a mesma coisa. Pode até ser que, na presença dos pais, tudo pareça tranquilo, mas na realidade os conflitos neste cenário estão em formação.

Outra questão que surge é quanto os filhos devem receber mensalmente. Na teoria, muitos pais concordam que os filhos devem receber aquilo que o mercado remunera. Mas, na realidade, isto acontece muito raramente. Os filhos precisam receber mais, pois certamente têm um nível de gastos cujos salários não cobrem as despesas. Como remunerar então? Se o que recebem em folha for muito superior ao que os demais  funcionários da empresa do mesmo nível levam para casa, estará criado o ambiente para um clima negativo e desmotivante na equipe de trabalho. Admissível é o familiar ganhar um pouco mais. Isto se justifica por alguns fatores que serão aceitos pelos colegas de trabalho, como por exemplo: os familiares são mais comprometidos com os negócios da família; em épocas de crise os familiares se sujeitarão a fazer sacrifícios; familiares em geral não pensam em mudar de emprego e assim por diante.

Mas tudo isto não quer dizer que o familiar deverá ganhar muito mais. Portanto as famílias precisam encontrar outros canais de remuneração para seus filhos, como direito a retiradas (antecipação da distribuição de lucros), remuneração por participarem no Conselho da Empresa ou mesadas que os pais queiram repassar aos filhos. Grande parte das famílias remunera de forma indireta seus herdeiros, como a compra de imóveis e veículos.

Outra questão a ser levantada se refere a pagamento de prêmios, bônus e outros benefícios. Cada família empresária tem sua maneira de gerenciar este tema. Para algumas famílias, os familiares não têm o direito a receber bônus ou premiações de qualquer espécie, já que são remunerados de outra forma. Para outros, os membros da família devem ter os mesmos direitos que os demais funcionários. O que é o certo ou o errado? O certo sempre é o que a família decide.

Outro assunto é a aposentadoria. Quem pagará a aposentadoria dos fundadores da empresa que, em geral, reinvestiram todos seus vencimentos na empresa e não fizeram seu pé de meia? Para estes,  a empresa deveria pagar de forma vitalícia uma aposentadoria condizente com suas necessidades. Entretanto, da segunda geração em diante a aposentadoria deveria ser administrada de forma independente por cada familiar. Não faz sentido a empresa cuidar financeiramente de todos familiares até o resto de suas vidas.

A remuneração e os benefícios dentro de uma empresa familiar podem gerar sérios conflitos.

Cabe às famílias empresárias aproveitar os momentos de  harmonia nos negócios para discutir todos estes pontos e estabelecer as regras de jogo para o momento atual e o futuro. As discussões deveriam seguir protocolos específicos, que são ferramentas simples mas poderosas dentro do contexto da boa governança corporativa. Bons protocolos mitigam conflitos futuros permitindo que a empresa familiar tenha reais chances de se perpetuar.

Fundador da Lanz Consultores Associados, empresa especializada em governança corporativa, gestão de empresas médias e grandes no Brasil. Formado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É Conselheiro de Administração certificado pelo IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa). Palestrante e  coautor dos livros: Aspectos Relevantes da Empresa Familiar (Editora Saraiva) e Empresas Familiares – Uma Visão Interdisciplinar (Editora Noeses).

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