Governança Corporativa e o processo de inovação

“A empresa inovadora é aquela que incorpora na sua essência a ambição e as competências para a sua contínua reinvenção.”

A inovação tem sido um dos assuntos mais discutidos atualmente em todos os ambientes de negócios. Neste cenário, usualmente se observa gestores, sócios e conselheiros estudando e questionando as estruturas ideais e formais para um ambiente inovador. O termo inovação, entretanto, tem sido utilizado de forma generalizada em nosso cotidiano. Afinal, todos querem ser inovadores – desde profissionais liberais até as grandes empresas.

Segundo o Manual de Oslo, principal fonte internacional de diretrizes para coleta e uso de dados sobre atividades inovadoras da indústria, que tem o objetivo de orientar e padronizar conceitos, metodologias e construção de estatísticas e indicadores de pesquisa, inovação é: “a implementação de um bem ou serviço novo ou significativamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas”.

Isto significa que os empreendedores iniciais utilizam tecnologias consideradas obsoletas em outros países, uma clara desvantagem em relação à competitividade global. Fato reafirmado pelo recente estudo da Confederação Nacional da Industria (CNI), que cruzou os dados de produtividade, exportação e taxa de inovação de 24 setores industriais brasileiros com os mesmos segmentos das 30 maiores economias do mundo.

O resultado mostrou que 14 setores precisam adotar com urgência estratégias de inovação e digitalização para se tornarem competitivos internacionalmente.

Mas para encarar esse desafio, algumas questões essenciais precisam ser feitas e respondidas, tais como: O que é ser inovador? Ser inovador é montar um centro de pesquisa e desenvolvimento (P&D)? Implementar novas tecnologias? Basta ser criativo para tornar-se inovador? Criar um comitê de inovação resolveria? Como o conselheiro pode ser inovador? O que diferencia uma empresa que inova de uma empresa que é inovadora é a sistematização da inovação. Afinal, não pode ser algo que acontece de forma esporádica e segregada aos departamentos de inovação, marketing, engenharia, produção, produto ou P&D.

A empresa inovadora é aquela que incorpora na sua essência a ambição e as competências para a sua contínua reinvenção, tocando os mais diversos aspectos do seu modelo operacional e de negócio. Para isso ocorrer de forma efetiva, é essencial estabelecer uma visão clara e compartilhada, empoderar as pessoas com competências, ferramentas e especialmente condições apropriadas.

Além de criar um movimento de contaminação cultural, que atinja a companhia inteira, transformando os comportamentos para sustentar a inovação abrangente e contínua. Agora, diante de todos esses conceitos e cenários, qual seria o papel da Governança Corporativa para chegarmos a um nível competitivo de inovação? Ela ajudaria ou emperraria o processo de inovação?

Cada vez mais a Governança Corporativa vem sendo comumente difundida e aceita como necessária para a sustentabilidade e longevidade das empresas. Baseada em princípios como transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa, o sistema dá aos investidores mais segurança quanto aos seus direitos, mais qualidade nas informações recebidas, melhor acompanhamento dos riscos e do monitoramento da gestão, permitindo maior precisão nas especificações das ações.

Há, inclusive, resultados empíricos no Brasil que indicam que “a qualidade das práticas de Governança Corporativa de uma empresa leva a um aumento econômico e significativo de seu valor de mercado ou de seu desempenho financeiro.” Entretanto, apenas a existência da estrutura de governança não dá essa garantia. Sua correlação com a promoção da inovação também não é uma conexão natural.

É necessário que a prática da inovação esteja intrinsecamente inserida na Cultura Organizacional da empresa e, consequentemente, na sua estrutura de Governança.

A questão muitas vezes é: o quanto estruturas formais de governança podem ou não contribuir para um “caminhar” rumo à cultura de inovação? No livro “Innovation Governance (2014)”, de Jean-Philippe Deschamps e Beebe Nelson, há referências  de que as empresas devem buscar práticas de gestão para inovar. Alguns resultados de pesquisas confirmam ser mais inovadoras as empresas em que seus presidentes, gestores e até Conselheiros de Administração compreendem com mais claridade o papel da inovação na estratégia corporativa.

Outras afirmam serem necessários comitês de inovação e até mesmo que esses órgãos atuem de forma independente para que sejam positivos e alcancem resultados relevantes. Ainda do ponto de vista de Deschamps e Nelson, ao pensarmos em governança e inovação, devemos considerar algumas práticas para um ambiente inovador:

  • Inovação é uma prioridade estratégica;
  • Compreensão da alta direção quanto aos desafios do futuro;
  • Estabelecimento de um comitê de gestão da inovação;
  • Empoderamento dos direitos de tecnologia como elo entre as atividades de gestor e P&D;
  • Reconhecimento de projetos que são relevantes para inovação;
  • Adoção de métricas para os resultados.

Desta forma, se a inovação estiver no DNA da empresa, dificilmente a Governança Corporativa irá emperrá-la, pois ela estará enraizada dentro da estrutura da empresa, inserida em seus valores, princípios, política, cultura e na estratégia da organização, permeando todas as decisões do corpo diretivo e também dos funcionários. Na visão de Valter Pieracciani, em seu livro Usina de Inovações, “Inovação é antes de tudo um estado de espírito”.

Mas nem sempre encontramos empresas com este grau de maturidade de inovação. As organizações com uma estrutura mais sólida, com processos bem definidos e uma trajetória longa, podem sentir mais dificuldade para criarem um ambiente inovador, pois terão que se tornar mais tolerantes aos erros para incentivar a criatividade do time e mudar conceito de hierarquia, o que requer mudanças internas de processos e sistemas.

Nessas situações, o papel da Governança Corporativa será primordial para fomentar uma cultura de inovação no corpo executivo para que disseminem e implementem uma gestão inovadora dentro da empresa. As organizações ao redor do mundo estão lidando com mudanças disruptivas nos negócios e na tecnologia, que estão impactando a economia.

Devemos ter em mente que a inovação está associada ao desenvolvimento da economia e da humanidade.

Uma empresa inovadora requer, por exemplo, um modelo de gestão com liderança descentralizada, empoderamento de times e desafios claros e concretos como parte de seu ambiente e de sua cultura corporativa. Um bom exemplo desse novo modelo de gestão são os Squads como o do Spotify. Nessas empresas a média gerência foi extinta e promoveram objetivos estratégicos para times independentes, descentralizados e com poder para tomar decisão. São times multidisciplinares estimulados por desafios, liderados por um project manager ou PMO, mas com todos os membros necessários incluídos para atender o desafio (marketing, finanças, TI, Web, Produto etc).

Outro ponto que deve ser considerado é a necessidade de estarmos abertos para a diversidade, seja ela cultural, de gênero, idade ou étnica. Desde as constatações pioneiras de Edith Penrose, na década de 1950, entende-se que as empresas devem ter diversidade em seus quadros para fomentar a inovação. Como dizia Robert Wong, “O sucesso está no equilíbrio”. Portanto, é imprescindível que o Conselho de Administração seja composto por diversidade, de acordo com as habilidades necessárias para que os objetivos e estratégias sejam atingidos.

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